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RADIOHEAD
De acordo com Colin Greenwood, "Hail To The Thief" é a resposta dos Radiohead aos tempos de desintegração do acto de ouvir um conjunto lógico de canções, de dissipação da política em nebulosas corporativas, de incerteza. Zonas híbridas, da cor de um crepúsculo.
Jorge Manuel Lopes

(OK Computer tem forma de peça conceptual, Kid A e Amnesiac são um mergulho no escuro, no avesso do som que se espera de uma banda pop-rock. O esqueleto do novo álbum pensa e reflecte os modos descontínuos de audição de objectos musicais na era digital.)

Hail To The Thief soa a colecção de canções, algo que não acontecia desde The Bends...
Sim, é verdade. Enquanto estávamos a amontar este disco, ele acabou por resultar mais numa recolha de canções, em vez daquela fluência que, tradicionalmente, define os álbuns. Conversámos sobre isso, e optámos por meter no disco tudo o que tínhamos gravado e de que gostávamos. Porque pensamos que, hoje em dia, as pessoas ouvem música de formas muito distintas, conforme se encontrem no carro, com um walkman, através de um leitor de mp3... Tudo esperiências muito diferentes de estarmos em casa com o nosso disco de vinil, os chinelos, o cachimbo, a necessidade de virar o disco... Não sei se [o conjunto actual de suportes físicos musicais] é coisa boa, mas determinou a forma como estruturámos Hail To The Thief.
Se ainda vivêssemos na era do vinil, este álbum seria, em termos estruturais, muito diferente?
Sem dúvida. Bom, ele vai ser editado em vinil. Será, penso eu, um vinil duplo. Ele soa muito bem em vini. Se eu mandasse, tudo o que fiséssemos eria editado em vinil, e cada álbum teria 40 minutos de duração. Nunca mais longos do que um disco dos Beatles. é uma medida perfeita.
Hoje em dia, a maior parte dos álbuns são...
Demasiado longos, sim.
Vai-se a meio da audição e morre-se de tédio.
Uma pessoa arrasta-se para conseguir escutar os discos de uma assentada. é como estar numa bicicleta de exercício num ginásio, ou algo do género. Mas pode-se optar por ouvir da faixa 3 à faixa 6, enquanto se vão buscar os miúdos à escola. Ou queimam-se as músicas de que se gosta para um CD, ou copiam-se, ou faz-se um download e enviam-se para outra pessoa, etc. Ou pode-se pôr o disco a tocar como música de fundo enquanto se janta com os amigos.

(Thom Yorke e Jonny Greenwood têm descrito o tema The Gloaming como o coração de Hal To The Thief. Vigiada por solavancos electrónicos pouco amistosos, a canção tanto anuncia uma escura antecâmara de um Mal não nomeado - "Genie let out of the bottle/it is now the witching hour" -, como remete - "They will suck you down/ to the other side/ to the shadow blue & red/ your alarm bell/ should be ringing" - para a inquietação face aos recentes desenvolvimentos polítocos americanos alinhada no título do álbum. A expressão "hail to the thief" está associada à nebuosa vitória de Bush no estadao da Florida e, consequentemente, nas últimas eleições presidenciais americanas.)

Concorda com as afirmações de Thom e Jonny em relação ao papel de The Gloaming como peça central deste álbum?
Pelo seu título, sim. No fundo, suponho que regista a ideia subjacente a todo o disco. Quer dizer, é apenas uma forma diferente de nomear o que já se encontrava em discos anteriores, como o Kid A e, sobretudo, o Amnesiac. Pela parte do Thom, sempre houve nas suas letras uma espécie de... articulação distópica dos sentimentos de instabilidade social e alienação, algo como "O que se passa no mundo, o que está errado, o que se quebrou, quais são os defeitos?", e The Gloaming capta esse sentido. São aqueles períodos imediatamente anteriores ao anoitecer e amanhecer. Quando os animais saem dos seus refúgios e o caçador parte à sua procura. Qual é a palavra equivalente em português?
Crepúsculo.
Como "crépuscule", em francês? Os franceses têm a expressão "entre le chien et le loup". É óptima, não é? Entre o animal caseiro e o que vai ser degolado.
Acha, portanto, que essa expressão/metáfora tem implicações bastante generalizadas? Como se, neste momento, vivêssemos todos numa espécie de...
Fio da navalha?
Sim.
Estamos todos, de várias formas, metidos num sarilho. Na verdade, a humanidade está sempre, de alguma forma, metida num sarilho qualquer. Nós é que não gostamos de pensar nisso. Não se fala dos 4 milhões de pessoas no Cong que estão a morrer de fome. Esse tema não consta do horizonte geral de preocupações. Por outro lado, quando temos filhos, se estivermos constantemente irritados acabamos por transmitir um mau legado. Ter filhos é um gesto de responsabilidade e uma manifestação de alguma espécie de fé no futuro. Não podemos passar o tempo todo a dizer que o mundo está completamente fodido. É necessário temperar um pouco as nossas opiniões, procurar aspectos mais optimistas. Caso contrário, porque havia de valer a pena escrever o que quer que seja?
O pessimismo absoluto é sempre uma boa desculpa para não se fazer nada.
Exactamente. E a natureza é tão bonita, não é?

(A natureza que se vê das generosas portadas de vidro da suite onde nos encontramos é uma espécie de pátio/jardim interior à moda britânica. Estamos no Morrison Hotel, junto ao rio Liffey, no centro de Dublin, República da Irlanda. O respectivo site descreve-o como o mais luxuoso hotel da Europa, e quem é o escriba para dizer o contrário? Pela noite - melhor, pelo fim da tarde-, os bares do Morrison começam a ficar superlotados, confirmando informações prévias de que o sítio, hi-tech q. b., é um dos mais fervilhantes do departamento classy das noites dublinenses. E com uma percentagem assombrosa de mulheres bonitas - tal como, aliás, toda a cidade. Mas, sim, a natureza que se avista da suite é bonita.)

Thom e Jonny referem que há diversos momentos no álbum que transmitem uma certa atmosfera de medo do futuro. Em temas como Sail To The Moon...
Essa é uma canção de fuga à realidade, não é? Desconheço se é esse o objectivo, mas parece o tipo de canção que se entoa à pessoa que amammos ou a uma criança. Quase como se fosse uma canção de embalar.
O título remete para esse imaginário infantil.
Sail To The Moon foi inspirado por "The Owl and the Pussycat" [poema de Edward Lear], onde os animais navegam num barco verde cor-de-ervilha e dançam ao luar. Poesia infantil. Depois, há temas como Sit Down, Stand Up que remetem para uma ideia de acção: o que fazer quando se vê algo que se acha errado? Como é que abordamos uma coisa dessas, como é que reagimos?
Participou em alguma manifestação contra a guerra no Iraque?
Fui a a uma em São Francisco, em Setembro. Mas não participei na de Londres [28 de Setembro], porque discordava das pessoas que a organizaram. Neste grupo, todos temos opiniões distintas sobre tudo, o que é bom. Isto não é uma monocultura. Participei nessa manifestação em São Francisco porque estava lá na altura e porque queria ver como era isso dos americanos mostrarem que estavam contra George Bush. Foi óptimo. O ambiente era excelente. Em Inglaterra, o ambiente das manifestações de que fiz parte era bem diferente, estranho - a cultura britânica tem uma certa natureza autoritária. O Governo continua a encarar a reunião de muitas pessoas num local público como uma ameaça. Bom, os portuguese, conhecem, de certeza, aquilo de que estou a falar. É interessante verificar a forma perversa como muitos espaços públicos são concebidos contra a realização dessas reuniões, criando vastas avenidas e praças que possibilitem o rápido acesso de tanques. Como a Alexander Platz, em Berlim Leste. O objectivo é que um milhão de manifestantes aglomerados no meio de uma praça gigantesca não pareça mais do que um punhado de pessoas. É a natureza opressiva da arquitectura.
Baseando-me somente nas imagens que passaram na televisão e em alguns relatos da imprensa, fiquei com a impressão que as manisfestações nos Estados Unidos eram, essencialmente, anti-guerra. Mesmo na forma como invectivavam Bush, tinham uma aparência quase apocalíptica. Na Europa, pelo contrário, esses ajuntamentos pareciam dominados por pequenos grupos políticos radicais, cujas acções vistosas acabavam por ser a "montra" das manifestações, mesmo que o extremismo que debitassem não fosse remotamente representativo da maioria dos participantes.
As manifestações na América são muito mais católicas, no sentido em que congregam grupos de pessoas muito diferentes. Na Europa as coisas tendem a aser mais um ou dois... AAh, não sei se isto é verdade. O que eu acho que se está a passar é que os governo na América está a ser romado por pessoas que, em conformidade com a tendência para a globalização, pretendem transformá-lo em mais uma corporação. Se calhar, as coisas foram sempre assim...Encaram a administração de um país como se se tratasse do lançamento de um qualquer produto ou marca. Mas foi óptimo gravar o disco na América. Passámos lá óptimos momentos. Nesse sentido, é um disco interessante - as canções foram testadas em palco nos países com as culturas imperiais mais antigas do mundo, isto é, em Espanha e Portugal, e fomos gravá-las no mais recente. Ou seja, e mais uma vez, entre o cão e o lobo. Gosto disso. O conceito da viagem também é interessante. Uma vez, estava a falar com algumas pessoas em Lisboa sobre a "saudade", o facto das pessoa irem para longe de casa, e reparei nas semelhanças entre tudo isso e fazer parte de uma banda. Este é um dos raros ofícios em que se vai para fora urante semanas ou meses consecutivos. Um bocado como vender os nossos bens, entrar num barco e percorrer diferentes mercados espalhados pelo mundo. Nesse sentido, fazemos parte do sistema.
Ligada ao sentimento de saudade vem a aspiração constante de se querer estar onde não se está.
Isso acontece mais quando somos novos. À medida que se vai envelhecendo, acabamos por encontrar um sítio onde nos sentimos mais confortáveis. Gosto muito disso. Mas não existe nenhuma componente nostálgica nos Radiohead. O Thom é muito bom a não olhar para trás, o que é bastante importante para um artista. Quando um artista começa a ter uma visão restrospectiva é porque deixou de criar.

(A capa de Hail To The Thief recorre às mesmas cores usadas no sistema de sinalização rodoviário nos Estados Unidos. Colin explica que esse sitema "é muito baseado na linguagem escrita. Não se encontram muitos símbolos. Na América, tudo é texto, o que é interessante. Os logotipos são usados pelas corporações. Noutros países, como na Europa, há menos palavras e mais símbolos. A pintura que dá a cara ao novo álbum dos Radiohead foi concebida por Stanley Donwood no estúdio enquanto o grupo registava as canções.)

Jorge Manuel Lopes, Em Dublin