Main Index >> Media Index >> Hail to the Thief Media | Portuguese Media | 2003 Interviews
RADIOHEAD - Regresso ao futuro
Os Radiohead são uma das bandas mais aduladas do planeta. A saída do seu sexto álbum é um dos acontecimentos musicais mais esperados do ano. Colin Greenwood - baixista deste quinteto de Oxford - invoca com toda a simplicidade a génese do brilhante "Hail To The Thief", a pirataria que aborda e o clima mundial inquietante que o rodeia.
Patrick Haour

Trata-se de um fenómeno que poderíamos comparar ao que se passa no centro de um ciclone. Quando estamos no centro do mesmo, tudo está calmo. As coisas parecem correr de igual forma para os Radiohead, prioridade internacional da sua editora e alvos de todo o tipo de cobiças por parte dos internautas pouco escrupulosos. Constatando que alguns patriotas norte-americanos se sentem ofendidos com o título deste novo álbum (convencidos de que visa o seu presidente), enquanto a banda se mostra mais serena e confiante do que nunca.
Refeitos das tensões que os afectaram durante estes dois últimos anos, com Kid A e Amnesiac a corresponder a um período particularmente difícil, os Radoohead estão agora em plena forma.

A Energia dos concertos
Desde o ano passado que se falava à boca pequena que os Radiohead estavam a preparar um regresso às guitarras depois de dois álbuns marcados pelos experimentalismos electrónicos, tendo alguns felizardos tido a hipótese de ouvir alguns dos novos temas aquando de meia dúzia de concertos em Portugal e Espanha.
A banda encontrava-se precisamene nessa altura em plena fase de composição. Os espectáculos coincidiram com esse período. Explicações de Colin: "Ao fim de um interregno de 6 meses - alguns membros da banda tiveram filhos e o meu irmão [Jonny] estava a trabalhar noutro projecto - começámos a desenvolver temas com base em novas ideias de canções que o Thom tinha. Foi sobre esta espécie de esqueletos que desenhámos uma espécie de fatos alinhavados que levamos connosco na digressão por Espanha e Portugal, com o público a participar assim na elaboração dos temas. Quando as pessoas se mostravam contentes, mantínhamos a canção tal como estava, senão modificávamo-la."
Tendo reencontrado o gosto pela espontaneidade na composição, os Radiohead fecharam-se em seguida no estúdio. "Trouxemos a energia desses concertos directamente para Los Angeles, onde trabalhámos com o Nigel Godrich. A primeira canção do álbum foi a primeira coisa que gravámos quando entrámos em estúdio. Thom inspirou-se muito em "I Might Be Wrong", o EP ao vivo que fizemos e ficámos com vontade de abordar as canções com um pouco mais de frescura."
Estamos perante uma frescura que os cinco músicos haviam perdido nestes últimos anos? Antes de começar a trabalhar no novo álbum, colocar as coisas em questão foi algo de muito profundo para os Radiohead. "Depois de Kid A e Amnesiac, estávamos esgotados, mas sentíamo-nos ao mesmo tempo revigorados. Reflectimos sobre a forma de abordar mais simplesmente as nossas canções e também sobre as razões que nos levaram a continuarmos a tocar juntos. Colocámos muitas coisas em causa. Foi difícil, mas este álbum é o primeiro que acabámos de gravar sem nos detestarmos e ficando sempre com vontade de tocarmos juntos. Voltámos à forma de trabalhar que tínhamos em The Bends e em uma parte de OK Computer, mas com menos stress e com mais bagagem emocional."
Daí concluir-se que "Hail To The Thief" constitui um álbum sereno vai apenas um passo. Mas os Radiohead não se transformaram numa banda de power pop resplandecente. Por agora não temos que nos preocupar com isso. "É engraçado porque algumas pessoas acham que este álbum é muito sombrio, outras que é eclético. Chegaram a dizer que parecia uma compilação de todos os nossos álbuns, com elementos de The Bends e OK Computer. Acho que tem muito de verdade. E de referir que a voz do Thom está mais presente e polivalente do que nunca; há uma maior variedade na forma de cantar, porque ele está menos tenso. Gravou a maior parte dos temas logo à primeira, sem reflectir e sem forçar. É muito inspirador ter um cantor tão talentoso na banda. O álbum assenta globalmente na voz do Thom e na bateria de Phil. Jogamos com base nestes dois elementos."
Desta forma, colocaram parcialmente de lado a parafernália de samplers, sintetizadores e computadores com que a banda se tinha vindo progressivamente a rodear. "Não esqueçemos o elemento electrónico, mas utilizamo-lo de uma forma diferente. Demo-nos conta de que era muito mais fácil tocar um tema ao vivo, incluindo as sonoridades electrónicas do que pré-gravar tudo. Por exemplo, Jonny liga em certos temas a sua guitarra a um computador, onde correm uma série de efeitos que ele próprio criou e depois a um amplificador. Desse modo, retiramos daí sons incríveis. Isso combina a espontaneidade de tocar ao vivo com as possibilidades electrónicas."

Democracia Directa
Mais de dois meses antes da sua saída, Hail To The Thief podia ser descarregado integralmente na Internet, uma vez que os Radiohead viram simplesmente a sua música ser roubada do estúdio onde trabalhavam. Tratou-se de algo que obviamente entristeceu o grupo, apesar de nunca terem sido o tipo de banda que condena a circulação gratuita de música na Internet. "Quando ouvimos os temas que estavam a circular na net ficámos logo a saber de onde é que tinham sido roubados, uma vez que eram versões que rejeitámos ou misturas não concluídas. Ficámos furiosos porque foi como se tivessem roubado as telas inacabadas ao Stanley [pintor que fez todas as capas da banda desde OK Computer e que pintou a deste novo registo com a banda em estúdio], ou a guitarra ao meu irmão. O lado positivo é que os fãs gostaram do que ouviram, e começaram a fazer alinhamentos fictícios do álbum nos fórus da internet. Pensavam que não tínhamos ainda decidido quais os temas que figurariam no álbum, pelo que cada um fazia o seu próprio alinhamento pessoal. De certo modo, até é engraçado, uma vez que traduz a democracia directa colocada em prática na net".
E adianta: "O único problema é que cmpete a nós tomar as decisões quanto ao álbum. Podemos falar do que os fãs gostam ou não, mas o ponto de partida deve ser, pelo menos, a obra concluída. Caso contrário, não faz qualquer sentido. O nosso processo criativo deve manter a sua integridade. Sobretudo porque damos importância aos pormenores: o alinhamento, o aspecto visual, tudo é alvo de reflexão e entristece-nos muito que provoquem um curto-circuito assim em nós."

Auto-censura permanente
Outra fonte de tensão ocorreu antes da saída do próprio álbum, nomeadamente com o seu título, Hail To The Thief. Traduzido, a designação traduz a expressão "glória ao ladrão" e resulta de um trocadilho com a expressão "hail to the chief", um slogan que apareceu aquando da eleição de John Adams, o 2º presidente norte-americano, no final do século XVIII.
Esta expressão seria muito utilizada em 2000 quando da controversa eleição de George Bush e é para os Radiohead muito mais que uma simples oposição ao actual presidente dos EUA. Alguns fãs norte-americanos particularmente patriotas não gostaram e manifestaram já o seu desagrado.
Uma situação que Colin desdramatiza: "Fizemos recentemente uma semana de produção junto da imprensa norte-americana e ninguém nos falou do título! Daí se conclui que aborda problemas de carácter mais geral do que a eleição de Bush. Escolher um título especificamente anti-Bush asfixiaria o significado de todas as canções, tornaria tudo unidimensional. Para compreender o título, o melhor é ver o aspecto visual do álbum, que representa um mapa-mundo com grandes espaços invadidos de palavras como "petróleo" ou "gás". Escolhemos este título porque queríamos algo que fosse bem com a música e com a imagem. O outro título do álbum pensado por Thom era "The Gloaming", um termo do inglês antigo que descreve o momento de semi-obscuridade quando o Sol começa a nascer ou a pôr-se, mas achámos que isso soava um pouco demasiado progressivo. Hail To The Thief é mais forte e traduz as nossas inquietações quanto à invasão do espaço, privado ou público, pela sociedade do consumo."
Os Radiohead continuam assim - e de forma mais ostensiva do que nunca - a desenvolver a sua carreira musical em paralelo com o lado militante que o grupo sempre adoptou, seja dando concertos ou a apoiar a Amnistia Internacional ou através do site radiohead.com, que serve de trampolim para promover causas várias em que acreditam. E se as convicções não mudam, o contexto planetário dificilmente lhes poderia dar mais razão do que agora.
"Gostamos muito do título. Não vamos mudá-lo apenas porque certas pessoas pensam que está relacionado com um tipo que não ficará no poder durante 4 anos. Está na própria natureza da democracia que cada um diga o que quer. E a redução dessa liberdade é precisamente uma das coisas que mais me aflige actualmente. O facto das pessoas se perguntarem porque chamámos ao nosso álbum Hail To The Thief neste clima actual foi precisamente uma das razões que nos levou a dar-lhe esse nome! A ameaça deixou de vir do exterior, de um sistema inimigo como o comunismo, mas do interior, do medo do terrorismo que se cala em permente auto-censura. É isso que nos assusta. Hail To The Thief fala de uma forma geral dos nossos medos sobre o futuro, que é o fio condutor dos nossos álbuns". Se cada um de nós fosse capaz de veicular os seus receios quanto ao futuro com tanto talento, o mundo teria certamente uma atitude melhor.